Custo de burnout: como calcular.
Burnout não é tema de RH. É uma linha do resultado — fragmentada em quatro contas que ninguém soma. Aqui está a soma, e a fórmula.
Um CFO sabe o custo da matéria-prima, da energia, do frete. Não sabe o custo do burnout — não por descaso, mas por arquitetura contábil. Ele existe, é grande, e está partido em quatro contas: afastamento, produtividade, rotatividade, retrabalho. Nenhuma é somada. Cada uma sangra de um lugar diferente do resultado e responde a uma intervenção diferente.
As quatro camadas
- Afastamento direto. Os dias em que o colaborador não está. Salário pago, entrega zero. A camada mais visível — e a menor.
- Presenteísmo. Está na cadeira, opera a uma fração da capacidade. A literatura de saúde ocupacional estima que custa de duas a três vezes o absenteísmo — e não gera atestado, por isso ninguém mede.
- Rotatividade atribuível. Parte do turnover não é carreira — é exaustão. Substituir alguém custa, somando recrutamento, vacância e curva de aprendizado, de 50% a 200% do salário anual do cargo.
- Retrabalho e erro. Equipe exausta erra mais. Cada entrega reprocessada é CTC gasto duas vezes.
A âncora — o CTC
Toda conta de pessoas precisa de uma âncora. A nossa é o CTC — Custo Total do Colaborador: salário mais encargos, benefícios, provisões e a infraestrutura da cadeira. No Brasil, 1,5 a 1,8 vez o salário bruto.
Consequência direta: calcular o custo do burnout sobre o salário, e não sobre o CTC, subestima o resultado em quase metade. A âncora errada não dá um número impreciso — dá um número errado.
A fórmula
C₁ afastamento = dias perdidos × CTC diário
C₂ presenteísmo = headcount em risco × CTC × queda de produtividade
C₃ rotatividade = desligamentos atribuíveis × CTC × multiplicador de substituição
C₄ retrabalho = horas reprocessadas × CTC/hora
Um exemplo auditável
Operação de 500 pessoas, CTC médio anual de R$ 90 mil — números ilustrativos, na ordem de grandeza de uma média empresa brasileira. O diagnóstico psicossocial aponta 18% da força em risco alto: 90 pessoas.
| Camada | Conta | Custo/ano |
|---|---|---|
| C₁ Afastamento | 90 pessoas × 9 dias extras × (R$ 90 mil ÷ 220 dias úteis) | R$ 331 mil |
| C₂ Presenteísmo | 90 pessoas × R$ 90 mil × 25% de queda | R$ 2,02 mi |
| C₃ Rotatividade | 6 desligamentos atribuíveis × R$ 90 mil × 1,0 | R$ 540 mil |
| C₄ Retrabalho | ~2.200 horas reprocessadas × CTC/hora | R$ 200 mil |
| Total | Custo anual de burnout | R$ 3,1 mi |
Numa folha anual de R$ 45 milhões, são quase 7% do custo de pessoas — invisíveis porque nunca aparecem juntos. E uma camada domina: o presenteísmo sozinho é seis vezes o afastamento. Exatamente a parte que ninguém mede, porque não há atestado para ela.
Por que "auditável" importa
Um número de custo de burnout só sobrevive a uma reunião de orçamento se cada parcela for rastreável até uma fonte. "Acho que perdemos uns milhões" cai na primeira pergunta. "Perdemos R$ 3,1 milhões, R$ 2 milhões deles em presenteísmo, medido sobre 90 pessoas em risco alto identificadas pelo COPSOQ III, custeadas pelo CTC da folha" — não cai.
A diferença entre os dois não é o tamanho do número. É a origem dele.
Do fator psicossocial ao número em reais
O Método mede os fatores psicossociais com o COPSOQ III, converte cada fator num multiplicador de erosão e os consolida com um modelo multiplicativo — fatores de risco não somam, se compõem. O resultado é traduzido em R$ pelo CTC. Diagnóstico → multiplicador → impacto financeiro, auditável em cada passo.
O que fazer com o número
Custo medido é custo gerenciável — e cada camada responde a uma alavanca distinta: afastamento responde a saúde; presenteísmo, a carga e autonomia; rotatividade, a liderança. Saber qual camada domina é o que separa orçamento de bem-estar genérico de decisão de alocação.
Burnout não é um tema sensível. É uma linha do resultado que ninguém imprime. A diferença entre a empresa que gere isso e a que não gere não é sensibilidade — é aritmética.
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